terça-feira, 21 de maio de 2024

CAJADOS E VARAS QUE MATAM

Texto-chave: Hebreus 5:12-14

Embora a esta altura já devessem ser mestres, precisam de alguém que ensine a vocês novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido! Quem se alimenta de leite ainda é criança e não tem experiência no ensino da justiça. Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal.

Longe de mim tentar te convencer de que eu não tive minhas fases de fragilidade. É claro que houve uma época que eu facilmente abandonaria a igreja por causa da primeira palavra dura dita por um líder da minha congregação. A questão não é essa.

A minha preocupação não é com o "crente em construção" - o sujeito que ainda fala e crê em muita bobagem, vive com a cabeça cheia de misticismo e de vez em quando ainda age como ímpio por causa dos seus pecados favoritos. Não! Esse está no processo de arrependimento e cura.

Para explicar melhor o que eu quero dizer, vou fazer uma analogia com a minha infância nas praias de São Luís.

As pocinhas e o mar

Eu sou natural de São Luís (sim, São Luís do Maranhão! Quando você diz que é natural do Rio de Janeiro eu não te pergunto se é Rio de Janeiro do Rio de Janeiro.), uma capital insular cujo lazer dominical de grande parte da população é ir à praia.

Com uma variação de maré que pode chegar aos sete metros, duas coisas podem ser observadas nas praias de São Luís:

  • em alguns trechos, a maré baixa pode transformar seu banho de mar numa caminhada de meio quilômetro; e
  • na vazante da maré, a correnteza das ondas cria pequenos lagos em certos pontos da praia, muito apreciados pelos pais de crianças pequenas.

Os ludovicenses chamam esses pequenos lagos de "pocinhas". Até bem pouco tempo era comum ver os pais ou responsáveis, sentados em suas cadeiras de praia ao lado dessas pocinhas enquanto seus filhos brincam na água do mar, represada até a próxima maré alta.

Ao mesmo tempo que cava essas pocinhas, a maré vazante também oferece o risco da correnteza, capaz de arrastar para o banzeiro até mesmo um adulto que não seja um hábil nadador. E isso realmente é muito perigoso.

Em resumo: adultos divertem-se nas ondas do mar e crianças nas pocinhas. Crianças no mar só se for na parte onde a onda já quebrou ou no colo dos pais com água até a cintura. Qualquer coisa além disso pode ser perigoso. Banzeiro, só para nadadores experientes.

Foto obtida no Portal R10 de 13/10/2020
Crente de pocinha no banzeiro

Embora o subtítulo acima seja autoexplicativo, preciso enfatizar que lugar de crente é servindo a Deus. Não interessa se é novo convertido, imaturo na fé ou se ainda tá cheio das "defuntices" do velho homem. Vá procurar servir a Deus da melhor maneira que puder.

O papel dos mais maduros na fé é o banzeiro: cuidar dos irmãos, ajudá-los na caminhada, acudi-los quando forem feridos, orientá-los a ler a Bíblia, orando junto e ajudando-os a "engrossar o couro", a compreender que a nossa comunhão não é baseada na emoção, mas na razão, no firme propósito da salvação do próximo. 

A minha preocupação é com o crente de pocinha sendo enviado ao banzeiro.

Sob essa definição de crente de pocinha há gente de todo tipo:

  • gente que conhece - e muito - a Bíblia, mas é pretensioso e cheio de orgulho;
  • gente que não se aprofunda na Bíblia, fazendo uma aliança com o comodismo e a mediocridade;
  • gente que se esquece que não está dentro de uma empresa e que o eixo norteador da igreja é o amor de Deus, o firme interesse na salvação do irmão; e
  • gente que vive um cristianismo aparente. Só é crente dentro da igreja, nas outras instâncias da vida continua com as mesmas velhas práticas de pecado.

Sob a definição de banzeiro: o discipulado em si, o cuidar de pessoas, o ensino da Palavra de Deus e o cuidado com os visitantes da igreja e com os novos convertidos.

É certo confiar discípulos a estes irmãos sob a alegação de que amadurecerão como discipuladores no servir a Deus?

Não devemos servir com excelência? Não devemos estar dispostos a sermos corrigidos em nossos erros para que não pequemos, morramos ou pior, matemos? A excelência não seria fazer o melhor possível com os recursos disponíveis? Se não está preparado, não está disponível! Como esses irmãos chegaram a assumir tais responsabilidades dentro da igreja ainda tão cheios de si?

Vara e cajado em mãos erradas

Como um prédio construído sobre tijolos de farinha, muitas igrejas fundam-se sobre o serviço de irmãos feridos, soberbos, mentirosos, ambiciosos, bajuladores, materialistas, hipócritas e preguiçosos.

O cajado - que deveria puxar a ovelha da beira do penhasco; e a vara - que manteria o rebanho no Caminho, coeso em Cristo. São usadas para espancar as ovelhas até a morte.

Em vez de serem levadas ao pasto verdejante, acabam num campo de espinhos e abrolhos. Em vez de  refrescarem-se nas águas tranquilas, perecem numa poça de sangue.

Sejam sal e luz também em suas igrejas. Debrucem-se sobre o Evangelho, aprendam do Senhor Jesus que é manso e humilde de coração.

Leiam a Bíblia.