O culto se encaminha para o final. Os irmãos estão maravilhados com aquela palavra que faz tanto sentido aos seus corações. O pastor acabara de servir um profundo sermão. Simples, porém de uma profundidade tamanha que os deixa absolutamente perplexos e apaixonados.
Para alguns visitantes, parece que um véu foi retirado de diante dos seus olhos. Verdades incômodas para as quais suas mentes pareciam anestesiadas tornaram-se visíveis. Cada um, à sua maneira, começou a perceber o quão distante está daquela fulgurante verdade, antes ocultada por uma espécie de cegueira espiritual.
Enquanto o pastor termina suas considerações sobre o sermão, esse tipo visitante já está considerando vir com regularidade e tornar-se membro daquela igreja que lhe abriu os olhos e permitiu ver o Senhor. Na hora da oração de salvação, também chamada por alguns de oração do apelo, a decisão já está tomada - Sim, quero fazer parte desta congregação, quero saber mais sobre o que Deus espera de mim e quais as mudanças e os desafios que enfrentarei para dar um novo rumo à minha vida em direção à Ele.
Quanto a estes, o caminho está visível e a há um longa e desafiadora jornada em direção ao Senhor. Não há mais nada a ser feito, a irresistível Graça já o alcançou.
Para outros visitantes cuja atenção foi roubada por aplicativos de mensagens dos seus celulares, pelo penteado estranho da mulher sentada à frente, pelo insistente arrumar da camisa do homem ao lado ou até por uma pessoa que se levantou para ir ao banheiro, para estes, nada mudou.
Sua atenção ficou dividida durante o culto. Eles sabem reconhecer a importância daquelas palavras, mas não sabem dizer muito claramente do que se tratava, a única certeza que têm é que parecia ser importante, afinal o que o pastor pregou na última meia hora está muito vago em suas mentes.
Então o pastor começa a oração de salvação (ou do apelo) e uma melodia suave começa a tomar conta da igreja. Pessoas de grande talento musical, cientes do seu papel em louvar ao Senhor com seus dons musicais, começam a tocar uma melodia suave, geralmente um instrumental de um louvor cantado no início do culto.
Nessa hora, movido pela emoção do momento, o segundo tipo de visitante, sem muita clareza da decisão que está tomando, levanta a mão em resposta à oração do apelo. Sem muita certeza da jornada que o espera, vai até o púlpito. Está emocionado demais para perceber a incerteza da sua decisão. Os desafios que enfrentará para dar um novo rumo à sua vida não estão lá muito claros, sua mente está entorpecida demais pela emoção do momento. Ele quer (e vai) declarar Jesus como seu Senhor e Salvador, mas desconhece as implicações desse ato em um mundo tão dissonante do Evangelho.
Esse é o motivo da minha cisma com fundos musicais nesse momento em particular. Para o segundo visitante, o que deveria ser uma decisão racional passa a ser uma decisão emocional. Um fundo musical tocante nesse momento não me parece contribuir positivamente para a decisão mais importante da vida de uma pessoa. E a minha cisma não é só com o fundo musical, há uma atmosfera emocional criada naquele momento.
Acredito que a partir desse tipo de decisão baseada na emoção surgem os chamados crentes não praticantes. Gente inconstante, que rejeita qualquer pregação que não esteja embalada por emoções semelhantes àquelas daquele primeiro culto.
E qual é o nosso papel como cristão se esse for o procedimento da sua igreja e você, assim como eu, discordar dessa prática?
Nosso dever é perguntar. Saber se não estamos errados à luz do Evangelho. E se mesmo assim, nossa pergunta permanecer de pé e se ficar claro que nossa igreja não irá reavaliar essa prática, nos cabe orar e trabalhar para que os convertidos pelo calor do momento se consolidem. A rebeldia definitivamente não é uma alternativa.
